segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Um museu de todo dia


Uma extensa programação marca os 75 anos do Museu do Ceará. As comemorações começam hoje com o lançamento de um livro sobre a história da instituição

A trajetória do Museu do Ceará começou em janeiro de 1933. Ao ser aberto ao público, funcionava nas dependências do Arquivo Público, na Rua 24 de Maio, no Centro de Fortaleza. Foi a primeira instituição museológica oficial do Estado. Ao longo do tempo, o acervo cresceu, novas sedes surgiram e o Museu passou por profundas mudanças. O espaço, hoje, é bem mais do que um abrigo para um rico acervo de peças de importante valor simbólico para o Estado. Incorporado ao cotidiano urbano dos fortalezenses, mesmo involuntariamente, o Museu promove uma reflexão crítica sobre a História do Ceará por meio de programas integrados de pesquisas museológicas, exposições, cursos, publicações e práticas pedagógicas.

“No início, a política do Museu era mais de nacionalizar, de promover a defesa da pátria. Estava mais ligado à história das elites, assim como todos os museus surgidos nos anos 30”, explica o diretor da instituição, professor Régis Lopes. Segundo ele, só a partir dos anos 90, começou a se pensar na relação museu e cidadania, museu e reflexão crítica, no sentido de favorecer a interpretação da história. Para o professor, a missão da instituição, agora, é muito clara: “Promover uma reflexão crítica da História do Ceará, por meio de exposições, publicações, cursos e palestras”.

O pesquisador defende a idéia do Museu como um centro cultural, que leve as pessoas a interpretar o passado do nosso Estado, de nosso povo. Quem visita o Museu do Ceará pode conhecer a luta de Frei Tito, religioso cearense que denunciou ao mundo a tortura praticada pela didatura militar brasileira (1964 - 1985). Mergulha na história do Caldeirão, que resultou no massacre de centenas de camponeses pelas balas e bombas lançadas por policiais civis e militares no Sul do Ceará. E marcha com os jagunços da Sedição de Juazeiro, que invadiram Fortaleza sob o comando do deputado Floro Bartolomeu e as bênçãos de Padre Cícero.

Todos voltam no tempo. Pode-se conhecer a Fortaleza de uma época em que as vias da cidade eram batizadas com a voz do cotidiano. Tempo da Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), do Beco da Apertada Hora (Governador Sampaio), Rua da Cachorra Magra (Marechal Deodoro), Rua da Alegria (Floriano Peixoto). No século passado, muitas vias ganharam novo batismo, recebendo nomes em homenagens a militares, políticos e religiosos de expressão no Estado.

As 15 mil peças que compõem o atual acervo do Museu do Ceará ajudam a contar a história do Estado e levam o cearense a se reconhecer um pouco mais. Na parte exposta do acervo, são encontradas muitas peças arqueológicas, como urnas mortuárias das principais tribos que habitavam a região antes da chegada dos portugueses. São encontradas peças alusivas ao maracatu, punhais de cangaceiros, rifles e revólveres da Guarda Nacional, documentos sobre a abolição dos escravos, pinturas e fotos que ilustram passagens marcantes da própria identidade cearense.

Obra cronológica

Depois de sete décadas e meia, o Museu tem sua própria história contada no livro “Museu do Ceará - 75 anos”, realizado pela Associação dos Amigos do Museu do Ceará. A obra será lançada hoje, às 18 horas, dando início à programação comemorativa pelo aniversário do Museu. Com organização de Antônio Luís Macêdo Silva Filho e Régis Lopes, o livro remonta a cronologia de fatos, textos, fotografias e arquivos compilados pelos historiadores João Paulo Vieira Neto, Alexandre Oliveira Gomes e Ana Amélia Rodrigues de Oliveira.


O Bode Io-iô, peça mais ilustre do Museu do Ceará, é o personagem principal da fábula criada pela historiadora Kênia Rios no segundo volume da coleção “Outras Historinhas”, com ilustrações de Marcos Vinúcius, que será lançado hoje, logo depois da apresentação do livro “Museu do Ceará - 75 anos”. O Bode Io-iô é a “face” mais visível de um rico acervo - resultado de compras e doações de particulares e públicas -, que inclui moedas, medalhas, quadros, móveis, peças arqueológicas, artefatos indígenas, bandeiras e armas. Há também peças de “arte popular” e uma coleção de cordéis publicados entre 1940 e 2000 (950 exemplares).

Boa parte do acervo está exposto nas salas do Museu, em mostras de longa duração e em espaços de exposições temporárias que percorrem vários temas da História do Ceará, como o Memorial Frei Tito (2002). A cada mês, o Museu recebe uma média de três mil pessoas. “Os estudantes representam 80% de nossos visitantes”, informa Lopes.

Em 2007, o Museu do Ceará figurou entre as principais instituições do país, quando foi reconhecido por dois prêmios nacionais do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan): o primeiro lugar no edital do Programa Monumenta, na categoria educação patrimonial, e com o prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, na categoria divulgação do patrimônio. Este reconhecimento consolidaa instituição como um significativo espaço de educação, cultura e lazer, segundo os preceitos da museologia contemporânea.

Em 2008, o aniversário de 75 anos marca o começo de uma ampla programação no equipamento, que inclui oito novas publicações da Coleção “Outras Histórias”, uma reforma estrutural no prédio-monumento (com recursos do programa Prodetur), a distribuição para estudantes, visitantes e turistas de mais mil cordéis sobre o bode Iô-iô, além de uma intensa programação cultural que inclui cursos na Escola Livre de História (a partir de fevereiro) e contação de histórias do Ceará com os Agentes da Memória (programa Talentos do Ceará -Secult/Fecop - que dissemina e valoriza a história oral).

Todas estas programações acontecem nos dias sete ao longo do ano, com a apresentação de uma nova roupagem museológica às exposições permanentes. Assim, durante todos os meses de 2008, uma das salas do Museu será reinaugurada, baseada na “pedagogia do diálogo”, inspiração das reflexões do educador Paulo Freire, como parte de um programa educativo mais amplo que inclui visitas orientadas, estreitando a relação do Museu com a sala de aula e ainda outros espaços de construção do conhecimento e da cidadania.
DN

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008 às 5:28:00 PM |  

Uma extensa programação marca os 75 anos do Museu do Ceará. As comemorações começam hoje com o lançamento de um livro sobre a história da instituição

A trajetória do Museu do Ceará começou em janeiro de 1933. Ao ser aberto ao público, funcionava nas dependências do Arquivo Público, na Rua 24 de Maio, no Centro de Fortaleza. Foi a primeira instituição museológica oficial do Estado. Ao longo do tempo, o acervo cresceu, novas sedes surgiram e o Museu passou por profundas mudanças. O espaço, hoje, é bem mais do que um abrigo para um rico acervo de peças de importante valor simbólico para o Estado. Incorporado ao cotidiano urbano dos fortalezenses, mesmo involuntariamente, o Museu promove uma reflexão crítica sobre a História do Ceará por meio de programas integrados de pesquisas museológicas, exposições, cursos, publicações e práticas pedagógicas.

“No início, a política do Museu era mais de nacionalizar, de promover a defesa da pátria. Estava mais ligado à história das elites, assim como todos os museus surgidos nos anos 30”, explica o diretor da instituição, professor Régis Lopes. Segundo ele, só a partir dos anos 90, começou a se pensar na relação museu e cidadania, museu e reflexão crítica, no sentido de favorecer a interpretação da história. Para o professor, a missão da instituição, agora, é muito clara: “Promover uma reflexão crítica da História do Ceará, por meio de exposições, publicações, cursos e palestras”.

O pesquisador defende a idéia do Museu como um centro cultural, que leve as pessoas a interpretar o passado do nosso Estado, de nosso povo. Quem visita o Museu do Ceará pode conhecer a luta de Frei Tito, religioso cearense que denunciou ao mundo a tortura praticada pela didatura militar brasileira (1964 - 1985). Mergulha na história do Caldeirão, que resultou no massacre de centenas de camponeses pelas balas e bombas lançadas por policiais civis e militares no Sul do Ceará. E marcha com os jagunços da Sedição de Juazeiro, que invadiram Fortaleza sob o comando do deputado Floro Bartolomeu e as bênçãos de Padre Cícero.

Todos voltam no tempo. Pode-se conhecer a Fortaleza de uma época em que as vias da cidade eram batizadas com a voz do cotidiano. Tempo da Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), do Beco da Apertada Hora (Governador Sampaio), Rua da Cachorra Magra (Marechal Deodoro), Rua da Alegria (Floriano Peixoto). No século passado, muitas vias ganharam novo batismo, recebendo nomes em homenagens a militares, políticos e religiosos de expressão no Estado.

As 15 mil peças que compõem o atual acervo do Museu do Ceará ajudam a contar a história do Estado e levam o cearense a se reconhecer um pouco mais. Na parte exposta do acervo, são encontradas muitas peças arqueológicas, como urnas mortuárias das principais tribos que habitavam a região antes da chegada dos portugueses. São encontradas peças alusivas ao maracatu, punhais de cangaceiros, rifles e revólveres da Guarda Nacional, documentos sobre a abolição dos escravos, pinturas e fotos que ilustram passagens marcantes da própria identidade cearense.

Obra cronológica

Depois de sete décadas e meia, o Museu tem sua própria história contada no livro “Museu do Ceará - 75 anos”, realizado pela Associação dos Amigos do Museu do Ceará. A obra será lançada hoje, às 18 horas, dando início à programação comemorativa pelo aniversário do Museu. Com organização de Antônio Luís Macêdo Silva Filho e Régis Lopes, o livro remonta a cronologia de fatos, textos, fotografias e arquivos compilados pelos historiadores João Paulo Vieira Neto, Alexandre Oliveira Gomes e Ana Amélia Rodrigues de Oliveira.


O Bode Io-iô, peça mais ilustre do Museu do Ceará, é o personagem principal da fábula criada pela historiadora Kênia Rios no segundo volume da coleção “Outras Historinhas”, com ilustrações de Marcos Vinúcius, que será lançado hoje, logo depois da apresentação do livro “Museu do Ceará - 75 anos”. O Bode Io-iô é a “face” mais visível de um rico acervo - resultado de compras e doações de particulares e públicas -, que inclui moedas, medalhas, quadros, móveis, peças arqueológicas, artefatos indígenas, bandeiras e armas. Há também peças de “arte popular” e uma coleção de cordéis publicados entre 1940 e 2000 (950 exemplares).

Boa parte do acervo está exposto nas salas do Museu, em mostras de longa duração e em espaços de exposições temporárias que percorrem vários temas da História do Ceará, como o Memorial Frei Tito (2002). A cada mês, o Museu recebe uma média de três mil pessoas. “Os estudantes representam 80% de nossos visitantes”, informa Lopes.

Em 2007, o Museu do Ceará figurou entre as principais instituições do país, quando foi reconhecido por dois prêmios nacionais do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan): o primeiro lugar no edital do Programa Monumenta, na categoria educação patrimonial, e com o prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, na categoria divulgação do patrimônio. Este reconhecimento consolidaa instituição como um significativo espaço de educação, cultura e lazer, segundo os preceitos da museologia contemporânea.

Em 2008, o aniversário de 75 anos marca o começo de uma ampla programação no equipamento, que inclui oito novas publicações da Coleção “Outras Histórias”, uma reforma estrutural no prédio-monumento (com recursos do programa Prodetur), a distribuição para estudantes, visitantes e turistas de mais mil cordéis sobre o bode Iô-iô, além de uma intensa programação cultural que inclui cursos na Escola Livre de História (a partir de fevereiro) e contação de histórias do Ceará com os Agentes da Memória (programa Talentos do Ceará -Secult/Fecop - que dissemina e valoriza a história oral).

Todas estas programações acontecem nos dias sete ao longo do ano, com a apresentação de uma nova roupagem museológica às exposições permanentes. Assim, durante todos os meses de 2008, uma das salas do Museu será reinaugurada, baseada na “pedagogia do diálogo”, inspiração das reflexões do educador Paulo Freire, como parte de um programa educativo mais amplo que inclui visitas orientadas, estreitando a relação do Museu com a sala de aula e ainda outros espaços de construção do conhecimento e da cidadania.
DN
Postado por Fred Guilhon Marcadores:

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