segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Gagueira é tratável

O que provoca a gagueira ainda é desconhecido para a Ciência. Apesar, diga-se de passagem, de ser estudada há anos e os exemplos de gagos serem muitos. Para se ter uma idéia, a Associação Brasileira de Gagueira estima que, no mundo, sejam 60 milhões, enquanto no Brasil soma-se 1,6 milhão de afetados. Dentre os famosos, pode-se elencar o personagem bíblico Moisés, a musa Marilyn Monroe e o cantor brasileiro Nélson Gonçalves.

Entretanto, apesar de não ter desvendado as causas da doença inscrita na Classificação Internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS), avanços têm sido feitos em relação ao tratamento da gagueira. A novidade é um aparelho portátil, similar ao auditivo, chamado de speech easy. Desde o início do mês, ele está disponível em Fortaleza, dos dois meses que chegou ao País. Inclusive, na Região Nordeste, somente o Ceará dispõe de profissionais treinados para lidar com a novidade, conforme explica o fonoaudiólogo Silvio Castro.

Membro associado da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa) e da American Speech-Hearing-Language Association (ASHAa), Silvio explica que o novo recurso para minimizar as manifestações da gagueira é colocado dentro do ouvido, porém, não amplifica o som como os demais aparelhos.

Ao invés disso, o speech easy capta as palavras e as retransmite ao ouvido do usuário com um pequeno atraso de milisegundos e uma leve alteração na freqüência (tom) da voz, produzindo o denominado ´efeito coro´. ´Quando pessoas que gaguejam falam ou cantam ao mesmo tempo com outros, a sua gagueira é reduzida ou até mesmo eliminada´, comenta. Isso porque, como detalha o fonoaudiólogo, nessas situações o cérebro cria uma ilusão de uma segunda voz, pois quando falamos em coro ou cantamos, a voz alcança o córtex com outro tom (sensação de freqüência) e outro tempo, o que viabiliza a fluência.

Indicações

Apesar dos resultados, que segundo Silvio Castro vêm sendo bastante positivos por meio dos estudos, o fonoaudiólogo ressalta que o aparelho não funciona como ´mágica´. Portanto, o acompanhamento fonoaudiológico é essencial no tratamento. Dessa forma, a novidade é indicada para crianças, a partir dos 10 anos, e adultos com gagueira de grau moderado a severo.

Inclusive, como aconselha Rita Vieira de Figueiredo, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e P.h.D em Psicopedagogia, é extremamente importante o acompanhamento dos pais, no que se refere à doença, que pode ocorrer na primeira infância. ´Esta é uma gagueira funcional que normalmente desaparece em torno dos cinco anos de idade. É importante que os pais não chamem atenção para essa gagueira porque isso pode contribuir para fixar e não para ajudar a criança a superar espontaneamente, como é esperado na gagueira funcional´.
Como característica, enumera o fonoaudiólogo Silvio Castro, a gagueira apresenta uma ruptura no ritmo da fala, na qual o indivíduo sabe precisamente o quer dizer, mas não consegue fazê-lo devido a movimentos involuntários nos órgãos fonoarticulatórios (boca, língua, dentes, músculos da face, laringe, etc.). Por conta disso, acontecem as repetições de sons ou sílabas, prolongamento dos sons, bloqueios (quando nenhum som consegue ser emitido e parece que a pessoa está ´travada´) e inserção de palavras ou expressões que não pertencem ao contexto.

Aprendizado

Apesar do distúrbio na fluência verbal, a também pós-doutora em Linguagem Escrita pela Universidade de Barcelona, Rita Vieira, afirma que a gagueira em si não atrapalha o aprendizado da língua materna. Segundo a professora, autora da dissertação de mestrado sobre a relação da dislalia e a gagueira na auto-estima da criança escolar, ´os estudantes podem aprender bem a se expressar verbalmente e por escrito mesmo com gagueira´.

Os problemas nas salas de aula, como esclarece, não dizem respeito à doença, mas à baixa auto-estima desses alunos. ´Na verdade, não existe nenhuma relação entre a gagueira e o desenvolvimento da inteligência nas crianças. Elas fazem equivocadamente essa associação porque essa marca de linguagem atua negativamente sobre a auto-estima, fazendo com que elas desenvolvam uma imagem negativa sobre si mesmas´.

A interferência que pode ocorrer com os estudantes, conforme Rita Vieira, é na leitura em voz alta. ´Quando os professores solicitam aos alunos lerem em voz alta na sala é uma dificuldade muito grande para os que apresentam gagueira. Não porque não saiba ler ou porque tenha dificuldade para compreender o texto, mas pelo emocional´.

Na opinião da pós-doutora em Linguagem Escrita, Rita Vieira, cabe aos pais e professores deixarem claro que a presença do problema da gagueira não diminui em nada a possibilidade dessas crianças serem bem aceitas e amadas por todos da forma que são.

APARELHO

Como funciona

É usado de modo similar a um aparelho auditivo. Entretanto, ao invés de amplificar o som, usa-se a tecnologia ´retorno auditivo alterado´, que recria o ´efeito coro´. Com o aparelho, as palavras pronunciadas são digitalizadas e retransmitidas com ligeiro atraso e modificação na freqüência (tom). O cérebro percebe que está falando junto com outra pessoa. Então, há o ´efeito coro´, reduzindo ou eliminando a gagueira.

Para obter

Localize um fonoaudiólogo especializado, certificado e habilitado a trabalhar com o aparelho no site: www.speecheasy.com.br.

PERFIL

1,6 milhão é a estimativa da Associação Brasileira de Gagueira de pessoas que sofrem com a doença no Brasil. Em todo mundo, calcula-se que são em média 60 milhões de portadores.
DN

Um comentário:

Ricardo de Carvalho disse...

Excelente notícia!

No Brasil, a população de pessoas que gaguejam chega a quase 2 milhões. Apesar disso, é como se vivéssemos num país em que o distúrbio simplesmente não existisse, dada a escassez de atenção que é dedicada ao assunto.

Ultimamente, as grandes redes de TV americanas (ABC, CNN, NBC, etc.) têm feito reportagens muito boas sobre o assunto (vide aqui).

Já no Brasil, continua sendo muito raro a TV falar da gagueira de forma séria e atualizada. Com tanta novidade aparecendo e tantas descobertas médico-científicas sendo feitas para a melhoria do entendimento e do tratamento do distúrbio, não entendo por que em nosso país a gagueira continua sendo assunto apenas de programas humorísticos.

Acho que já está na hora de mudar isso.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008 às 6:40:00 AM |  
O que provoca a gagueira ainda é desconhecido para a Ciência. Apesar, diga-se de passagem, de ser estudada há anos e os exemplos de gagos serem muitos. Para se ter uma idéia, a Associação Brasileira de Gagueira estima que, no mundo, sejam 60 milhões, enquanto no Brasil soma-se 1,6 milhão de afetados. Dentre os famosos, pode-se elencar o personagem bíblico Moisés, a musa Marilyn Monroe e o cantor brasileiro Nélson Gonçalves.

Entretanto, apesar de não ter desvendado as causas da doença inscrita na Classificação Internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS), avanços têm sido feitos em relação ao tratamento da gagueira. A novidade é um aparelho portátil, similar ao auditivo, chamado de speech easy. Desde o início do mês, ele está disponível em Fortaleza, dos dois meses que chegou ao País. Inclusive, na Região Nordeste, somente o Ceará dispõe de profissionais treinados para lidar com a novidade, conforme explica o fonoaudiólogo Silvio Castro.

Membro associado da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa) e da American Speech-Hearing-Language Association (ASHAa), Silvio explica que o novo recurso para minimizar as manifestações da gagueira é colocado dentro do ouvido, porém, não amplifica o som como os demais aparelhos.

Ao invés disso, o speech easy capta as palavras e as retransmite ao ouvido do usuário com um pequeno atraso de milisegundos e uma leve alteração na freqüência (tom) da voz, produzindo o denominado ´efeito coro´. ´Quando pessoas que gaguejam falam ou cantam ao mesmo tempo com outros, a sua gagueira é reduzida ou até mesmo eliminada´, comenta. Isso porque, como detalha o fonoaudiólogo, nessas situações o cérebro cria uma ilusão de uma segunda voz, pois quando falamos em coro ou cantamos, a voz alcança o córtex com outro tom (sensação de freqüência) e outro tempo, o que viabiliza a fluência.

Indicações

Apesar dos resultados, que segundo Silvio Castro vêm sendo bastante positivos por meio dos estudos, o fonoaudiólogo ressalta que o aparelho não funciona como ´mágica´. Portanto, o acompanhamento fonoaudiológico é essencial no tratamento. Dessa forma, a novidade é indicada para crianças, a partir dos 10 anos, e adultos com gagueira de grau moderado a severo.

Inclusive, como aconselha Rita Vieira de Figueiredo, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e P.h.D em Psicopedagogia, é extremamente importante o acompanhamento dos pais, no que se refere à doença, que pode ocorrer na primeira infância. ´Esta é uma gagueira funcional que normalmente desaparece em torno dos cinco anos de idade. É importante que os pais não chamem atenção para essa gagueira porque isso pode contribuir para fixar e não para ajudar a criança a superar espontaneamente, como é esperado na gagueira funcional´.
Como característica, enumera o fonoaudiólogo Silvio Castro, a gagueira apresenta uma ruptura no ritmo da fala, na qual o indivíduo sabe precisamente o quer dizer, mas não consegue fazê-lo devido a movimentos involuntários nos órgãos fonoarticulatórios (boca, língua, dentes, músculos da face, laringe, etc.). Por conta disso, acontecem as repetições de sons ou sílabas, prolongamento dos sons, bloqueios (quando nenhum som consegue ser emitido e parece que a pessoa está ´travada´) e inserção de palavras ou expressões que não pertencem ao contexto.

Aprendizado

Apesar do distúrbio na fluência verbal, a também pós-doutora em Linguagem Escrita pela Universidade de Barcelona, Rita Vieira, afirma que a gagueira em si não atrapalha o aprendizado da língua materna. Segundo a professora, autora da dissertação de mestrado sobre a relação da dislalia e a gagueira na auto-estima da criança escolar, ´os estudantes podem aprender bem a se expressar verbalmente e por escrito mesmo com gagueira´.

Os problemas nas salas de aula, como esclarece, não dizem respeito à doença, mas à baixa auto-estima desses alunos. ´Na verdade, não existe nenhuma relação entre a gagueira e o desenvolvimento da inteligência nas crianças. Elas fazem equivocadamente essa associação porque essa marca de linguagem atua negativamente sobre a auto-estima, fazendo com que elas desenvolvam uma imagem negativa sobre si mesmas´.

A interferência que pode ocorrer com os estudantes, conforme Rita Vieira, é na leitura em voz alta. ´Quando os professores solicitam aos alunos lerem em voz alta na sala é uma dificuldade muito grande para os que apresentam gagueira. Não porque não saiba ler ou porque tenha dificuldade para compreender o texto, mas pelo emocional´.

Na opinião da pós-doutora em Linguagem Escrita, Rita Vieira, cabe aos pais e professores deixarem claro que a presença do problema da gagueira não diminui em nada a possibilidade dessas crianças serem bem aceitas e amadas por todos da forma que são.

APARELHO

Como funciona

É usado de modo similar a um aparelho auditivo. Entretanto, ao invés de amplificar o som, usa-se a tecnologia ´retorno auditivo alterado´, que recria o ´efeito coro´. Com o aparelho, as palavras pronunciadas são digitalizadas e retransmitidas com ligeiro atraso e modificação na freqüência (tom). O cérebro percebe que está falando junto com outra pessoa. Então, há o ´efeito coro´, reduzindo ou eliminando a gagueira.

Para obter

Localize um fonoaudiólogo especializado, certificado e habilitado a trabalhar com o aparelho no site: www.speecheasy.com.br.

PERFIL

1,6 milhão é a estimativa da Associação Brasileira de Gagueira de pessoas que sofrem com a doença no Brasil. Em todo mundo, calcula-se que são em média 60 milhões de portadores.
DN
Postado por Fred Guilhon Marcadores: , ,

1 comentários:

Ricardo de Carvalho disse...

Excelente notícia!

No Brasil, a população de pessoas que gaguejam chega a quase 2 milhões. Apesar disso, é como se vivéssemos num país em que o distúrbio simplesmente não existisse, dada a escassez de atenção que é dedicada ao assunto.

Ultimamente, as grandes redes de TV americanas (ABC, CNN, NBC, etc.) têm feito reportagens muito boas sobre o assunto (vide aqui).

Já no Brasil, continua sendo muito raro a TV falar da gagueira de forma séria e atualizada. Com tanta novidade aparecendo e tantas descobertas médico-científicas sendo feitas para a melhoria do entendimento e do tratamento do distúrbio, não entendo por que em nosso país a gagueira continua sendo assunto apenas de programas humorísticos.

Acho que já está na hora de mudar isso.

4 de agosto de 2008 12:25