domingo, 10 de fevereiro de 2008

Viviane Castro. A nudez que foi castigada


Viviane castro tem 25 anos. conta que há quatro trabalha em “festas e eventos” em Goiás e no Distrito Federal. Está há seis meses no Rio de Janeiro. Nasceu em Luziânia, cidade de Goiás conhecida pela marmelada e pelo Rego das Cabaças, uma fenda com 42 quilômetros de extensão. Viviane só precisou de 4 centímetros para garimpar seus 15 minutos de fama. Encontrada pelo produtor Kiko Alves – “revelador” de musas do Carnaval como Viviane Araújo –, Viviane saiu pela São Clemente, no desfile do Carnaval carioca deste ano, vestindo um tapa-sexo de 4 por 9 centímetros. Que sumiu durante o desfile.

A peça, uma tira de emplastro de cânfora, coberta com purpurina e spray iluminador, presa com supercola à genitália da modelo minutos antes da apresentação, ficou invisível, tornando o resto bastante visível. Segundo ela, o tapa-sexo pigmeu agarrou-se com tal frenesi a seu corpo que só foi possível retirá-lo, com muita paciência, com meia hora de banheira quente, bem depois do desfile.

A celebridade instantânea foi boa para Viviane – promovida a capa de uma pequena revista erótica carioca, para a qual havia posado antes do Carnaval (ela não revelou o cachê) – e enfureceu a São Clemente, que perdeu meio ponto na apuração do desfile das escolas de samba. Última colocada, a São Clemente teria sido rebaixada mesmo sem essa punição. Em 1990, a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) determinou que não poderia haver “exibição da genitália desnuda” na Sapucaí. “Não tive muito tempo para pensar, mas da forma como (o caso) foi conduzido eu considero um ato de censura”, disse Viviane.

A regra foi criada depois que Enoli Lara desfilou nua em 1989, pela União da Ilha, representando Afrodite, a deusa grega do amor, vestindo apenas um par de botas. No ano seguinte, Joãosinho Trinta criticou a proibição no enredo “Todo Mundo Nasceu Nu”. O ator Jorge Lafond desfilou com o corpo todo coberto... de purpurina. A Liesa respondeu à provocação ampliando a regra: estava terminantemente proibido desfilar com a “genitália desnuda, pintada ou decorada”. Em 1992, a regra finalmente fez uma vítima: o próprio Joãosinho. O ator Torez Bandeira desfilou pela Beija-Flor vestindo apenas um esparadrapo, que acabou caindo de seus genitais durante o desfile, custando 2 pontos à escola.

Os carnavalescos têm todo o direito de se regular da maneira que considerarem a mais correta. Mas outras centenas de tapa-sexos compareceram ao Sambódromo nas duas noites de folia. Nos últimos anos, foram milhares. Alguns tapando o púbis inteiro. Outros tapando só parte do púbis. Tapa-sexos crespos, lisos, oxigenados, adornados com lantejoulas, miçangas, fitinhas, lacinhos, espelhinhos. Se o emplastro de Viviane medisse 8 centímetros, tudo bem? Se medisse 6, custaria meia punição? Se medisse 12, seria aplaudido de pé pelo júri? A partir de que ponto um tapa-sexo deixa de ser uma celebração da beleza e passa a ser uma ofensa imperdoável?

A missão de um tapa-sexo é tapar o sexo. Não é tapar o púbis, nem a virilha, nem o períneo, nem o sovaco. Nem sequer se pode dizer da moça que estava nua em pêlo – ela estava depiladíssima, quase angelical, em sua fantasia de índia. Se alguma coisa destoava ali, era precisamente o tapa-sexo, que os índios não usam. No quesito Alegoria, Viviane merecia nota 10.

A gradação da nudez, essa escala de valores morais e estéticos pleiteada pelos organizadores do Carnaval do Rio, não é fácil de compreender. Peitos descomunais pode, nudez traseira ululante pode, corpos inteiramente fabricados pode, toda sorte de insinuação sexual pode. Nudez frontal, mesmo a mais maquiada, produzida, sublimada, nem pensar. O beiço dado pelos senhores do Carnaval aos adoráveis recônditos que Viviane revelou artisticamente ao mundo, a serviço do enredo de uma escola de samba, soa mais ou menos como, numa churrascaria, o garçom se escandalizar porque você pediu uma maminha. Uma contradição inominável.

A nudez sempre foi o grande ingrediente da arte do Carnaval. Os corpos são a moldura, a tela e a tinta das obras pintadas ali, a céu aberto. Proibir a exposição dos corpos no Carnaval não é só um paradoxo. É uma diminuição das possibilidades artísticas do evento. Um Carnaval regido pelo moralismo e pela caretice, que se deixe encampar por estes tempos terrivelmente conservadores que vivemos, é algo a lamentar. Assim como o fato de que a festa de 2008, infelizmente, pode entrar para a História como o Carnaval da censura.
ÉPOCA

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domingo, 10 de fevereiro de 2008 às 3:16:00 PM |  

Viviane castro tem 25 anos. conta que há quatro trabalha em “festas e eventos” em Goiás e no Distrito Federal. Está há seis meses no Rio de Janeiro. Nasceu em Luziânia, cidade de Goiás conhecida pela marmelada e pelo Rego das Cabaças, uma fenda com 42 quilômetros de extensão. Viviane só precisou de 4 centímetros para garimpar seus 15 minutos de fama. Encontrada pelo produtor Kiko Alves – “revelador” de musas do Carnaval como Viviane Araújo –, Viviane saiu pela São Clemente, no desfile do Carnaval carioca deste ano, vestindo um tapa-sexo de 4 por 9 centímetros. Que sumiu durante o desfile.

A peça, uma tira de emplastro de cânfora, coberta com purpurina e spray iluminador, presa com supercola à genitália da modelo minutos antes da apresentação, ficou invisível, tornando o resto bastante visível. Segundo ela, o tapa-sexo pigmeu agarrou-se com tal frenesi a seu corpo que só foi possível retirá-lo, com muita paciência, com meia hora de banheira quente, bem depois do desfile.

A celebridade instantânea foi boa para Viviane – promovida a capa de uma pequena revista erótica carioca, para a qual havia posado antes do Carnaval (ela não revelou o cachê) – e enfureceu a São Clemente, que perdeu meio ponto na apuração do desfile das escolas de samba. Última colocada, a São Clemente teria sido rebaixada mesmo sem essa punição. Em 1990, a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) determinou que não poderia haver “exibição da genitália desnuda” na Sapucaí. “Não tive muito tempo para pensar, mas da forma como (o caso) foi conduzido eu considero um ato de censura”, disse Viviane.

A regra foi criada depois que Enoli Lara desfilou nua em 1989, pela União da Ilha, representando Afrodite, a deusa grega do amor, vestindo apenas um par de botas. No ano seguinte, Joãosinho Trinta criticou a proibição no enredo “Todo Mundo Nasceu Nu”. O ator Jorge Lafond desfilou com o corpo todo coberto... de purpurina. A Liesa respondeu à provocação ampliando a regra: estava terminantemente proibido desfilar com a “genitália desnuda, pintada ou decorada”. Em 1992, a regra finalmente fez uma vítima: o próprio Joãosinho. O ator Torez Bandeira desfilou pela Beija-Flor vestindo apenas um esparadrapo, que acabou caindo de seus genitais durante o desfile, custando 2 pontos à escola.

Os carnavalescos têm todo o direito de se regular da maneira que considerarem a mais correta. Mas outras centenas de tapa-sexos compareceram ao Sambódromo nas duas noites de folia. Nos últimos anos, foram milhares. Alguns tapando o púbis inteiro. Outros tapando só parte do púbis. Tapa-sexos crespos, lisos, oxigenados, adornados com lantejoulas, miçangas, fitinhas, lacinhos, espelhinhos. Se o emplastro de Viviane medisse 8 centímetros, tudo bem? Se medisse 6, custaria meia punição? Se medisse 12, seria aplaudido de pé pelo júri? A partir de que ponto um tapa-sexo deixa de ser uma celebração da beleza e passa a ser uma ofensa imperdoável?

A missão de um tapa-sexo é tapar o sexo. Não é tapar o púbis, nem a virilha, nem o períneo, nem o sovaco. Nem sequer se pode dizer da moça que estava nua em pêlo – ela estava depiladíssima, quase angelical, em sua fantasia de índia. Se alguma coisa destoava ali, era precisamente o tapa-sexo, que os índios não usam. No quesito Alegoria, Viviane merecia nota 10.

A gradação da nudez, essa escala de valores morais e estéticos pleiteada pelos organizadores do Carnaval do Rio, não é fácil de compreender. Peitos descomunais pode, nudez traseira ululante pode, corpos inteiramente fabricados pode, toda sorte de insinuação sexual pode. Nudez frontal, mesmo a mais maquiada, produzida, sublimada, nem pensar. O beiço dado pelos senhores do Carnaval aos adoráveis recônditos que Viviane revelou artisticamente ao mundo, a serviço do enredo de uma escola de samba, soa mais ou menos como, numa churrascaria, o garçom se escandalizar porque você pediu uma maminha. Uma contradição inominável.

A nudez sempre foi o grande ingrediente da arte do Carnaval. Os corpos são a moldura, a tela e a tinta das obras pintadas ali, a céu aberto. Proibir a exposição dos corpos no Carnaval não é só um paradoxo. É uma diminuição das possibilidades artísticas do evento. Um Carnaval regido pelo moralismo e pela caretice, que se deixe encampar por estes tempos terrivelmente conservadores que vivemos, é algo a lamentar. Assim como o fato de que a festa de 2008, infelizmente, pode entrar para a História como o Carnaval da censura.
ÉPOCA
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