sexta-feira, 30 de março de 2007

FIM DE SEMANA NA PRAIA - Antonio Brás Constante


Eis que aí está você. Bermudão e chinelos. Um sol maravilhoso. Curtindo a brisa marinha. Veio com a esposa e os filhos para um fim de semana em família.

A casa você comprou no inverno, quando os preços eram menores.

O primeiro ritual ao chegar na praia é ir molhar os pés na beira do mar, não que dê sorte ou azar, é mais para a pessoa entrar no clima do lugar. Sentir-se como sendo batizado, para poder aproveitar as delícias de um feriado regido pelo sol, areia e um mar azul e límpido.

Após a cerimônia de “lava-pés”, você volta ao carro e descarrega todas as suas tralhas, abrindo a casa para arejá-la. A manhã já está na metade, o momento certo para colocar a churrasqueira para funcionar.

Neste momento você se sente um verdadeiro Rei. O pau de mexer o carvão é seu cetro real. O banquinho de madeira, seu trono. A carne crua e temperada a sua frente e a latinha de cerveja são suas riquezas e as moscas à sua volta os ladrões que atacam todos os reinos e devem ser repudiados com sua toalha de limpar as mãos.

Mas mesmo onde reina a paz mais intensa, acabam surgindo os piores dissabores e eles chegam buzinando e fazendo alarde. Você ainda não sabe quem são? Os seus parentes! Apareceram de surpresa para te fazer companhia na praia. Afinal para eles, praia sem parentes não é praia.

Costumam vir aos bandos, de forma predatória. Chegam, comem e bebem tudo que encontram e se mandam sem ajudar a pagar a conta. Os parentes são a maldição de qualquer homem casado. Ou que tenha algum irmão ou irmã casada.

Pode ocorrer também em famílias com muitos tios, ou seja, todos nós, seres humanos, estamos sujeitos a sermos vítimas dessa situação. Até o momento, nenhum dos parentes homens foi até onde você se encontra. Alguns abanaram de longe. Eles sentiram o cheiro do serviço e irão esperar até que a carne esteja quase assada, para então se aproximar e comer os aperitivos com farofa.

Neste meio-tempo irão se saciar com as cervejas que você estocou na geladeira. Alguns já se adonaram das redes e outros colocaram as mochilas no seu quarto, perguntando de forma descarada se podem usar a cama para descansar.

Você tenta conhecer todos que estão ali presentes, mas alguns são estranhos, pois são convidados dos seus parentes. Isto mesmo, uma mania de parente é convidar amigos deles para passar o fim-de-semana na sua casa de praia.

O almoço corre como o esperado, ou seja, você servindo a carne e todo resto comendo. A cerveja acaba e sua esposa lhe pede para ir comprar mais, você se nega e acontece a primeira briga do casal. Toda a parentada fica do lado de sua esposa. Afinal o insensível é você que não quer atender ao pedido dela.

Depois de muita discussão, finalmente vai buscar a cerveja (vários parentes vão junto, porém sem levar as carteiras de dinheiro). Note que eles não vão com você por serem bonzinhos, mas sim para impedir que compre alguma marca de cerveja vagabunda.

Chega a tarde, você pede para sua esposa lhe passar o bronzeador, mas ela lhe vira o rosto. Ainda está chateada com a história da cerveja. Principalmente depois da parentada ter enchido a cabeça dela. Agora percebe que está sozinho, sua esposa passou para o lado do inimigo.

Quando resolve ir a praia, descobre que o seu bronzeador foi totalmente utilizado, que pegaram seus calções de banho e sumiram com suas toalhas. Até seus óculos de sol desapareceram.

Acaba indo de bermudão mesmo, sem nenhum protetor no corpo e sentindo o brilho do sol machucar seus olhos. O tormento dura todo feriado. No último dia, ao final da tarde todos vão embora, deixando a casa toda suja e bagunçada para você ajeitar. Afinal a casa é sua e não eles.

Você fica parado na frente do mar, todo queimado de sol, endividado, cansado, chateado, de mal com a patroa e o que é pior nesta situação toda, sem ter como dar o troco neles.

O melhor a fazer é vender a casa de praia e usar o dinheiro para viajar para outro estado, bem longe e de avião.

Assim você finalmente terá férias de verdade e quem sabe até traga umas lembrancinhas, para que seus entes queridos morram de inveja.


Antonio Brás Constante

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Eis que aí está você. Bermudão e chinelos. Um sol maravilhoso. Curtindo a brisa marinha. Veio com a esposa e os filhos para um fim de semana em família.

A casa você comprou no inverno, quando os preços eram menores.

O primeiro ritual ao chegar na praia é ir molhar os pés na beira do mar, não que dê sorte ou azar, é mais para a pessoa entrar no clima do lugar. Sentir-se como sendo batizado, para poder aproveitar as delícias de um feriado regido pelo sol, areia e um mar azul e límpido.

Após a cerimônia de “lava-pés”, você volta ao carro e descarrega todas as suas tralhas, abrindo a casa para arejá-la. A manhã já está na metade, o momento certo para colocar a churrasqueira para funcionar.

Neste momento você se sente um verdadeiro Rei. O pau de mexer o carvão é seu cetro real. O banquinho de madeira, seu trono. A carne crua e temperada a sua frente e a latinha de cerveja são suas riquezas e as moscas à sua volta os ladrões que atacam todos os reinos e devem ser repudiados com sua toalha de limpar as mãos.

Mas mesmo onde reina a paz mais intensa, acabam surgindo os piores dissabores e eles chegam buzinando e fazendo alarde. Você ainda não sabe quem são? Os seus parentes! Apareceram de surpresa para te fazer companhia na praia. Afinal para eles, praia sem parentes não é praia.

Costumam vir aos bandos, de forma predatória. Chegam, comem e bebem tudo que encontram e se mandam sem ajudar a pagar a conta. Os parentes são a maldição de qualquer homem casado. Ou que tenha algum irmão ou irmã casada.

Pode ocorrer também em famílias com muitos tios, ou seja, todos nós, seres humanos, estamos sujeitos a sermos vítimas dessa situação. Até o momento, nenhum dos parentes homens foi até onde você se encontra. Alguns abanaram de longe. Eles sentiram o cheiro do serviço e irão esperar até que a carne esteja quase assada, para então se aproximar e comer os aperitivos com farofa.

Neste meio-tempo irão se saciar com as cervejas que você estocou na geladeira. Alguns já se adonaram das redes e outros colocaram as mochilas no seu quarto, perguntando de forma descarada se podem usar a cama para descansar.

Você tenta conhecer todos que estão ali presentes, mas alguns são estranhos, pois são convidados dos seus parentes. Isto mesmo, uma mania de parente é convidar amigos deles para passar o fim-de-semana na sua casa de praia.

O almoço corre como o esperado, ou seja, você servindo a carne e todo resto comendo. A cerveja acaba e sua esposa lhe pede para ir comprar mais, você se nega e acontece a primeira briga do casal. Toda a parentada fica do lado de sua esposa. Afinal o insensível é você que não quer atender ao pedido dela.

Depois de muita discussão, finalmente vai buscar a cerveja (vários parentes vão junto, porém sem levar as carteiras de dinheiro). Note que eles não vão com você por serem bonzinhos, mas sim para impedir que compre alguma marca de cerveja vagabunda.

Chega a tarde, você pede para sua esposa lhe passar o bronzeador, mas ela lhe vira o rosto. Ainda está chateada com a história da cerveja. Principalmente depois da parentada ter enchido a cabeça dela. Agora percebe que está sozinho, sua esposa passou para o lado do inimigo.

Quando resolve ir a praia, descobre que o seu bronzeador foi totalmente utilizado, que pegaram seus calções de banho e sumiram com suas toalhas. Até seus óculos de sol desapareceram.

Acaba indo de bermudão mesmo, sem nenhum protetor no corpo e sentindo o brilho do sol machucar seus olhos. O tormento dura todo feriado. No último dia, ao final da tarde todos vão embora, deixando a casa toda suja e bagunçada para você ajeitar. Afinal a casa é sua e não eles.

Você fica parado na frente do mar, todo queimado de sol, endividado, cansado, chateado, de mal com a patroa e o que é pior nesta situação toda, sem ter como dar o troco neles.

O melhor a fazer é vender a casa de praia e usar o dinheiro para viajar para outro estado, bem longe e de avião.

Assim você finalmente terá férias de verdade e quem sabe até traga umas lembrancinhas, para que seus entes queridos morram de inveja.


Antonio Brás Constante
Postado por Fred Guilhon Marcadores: ,

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