quarta-feira, 26 de março de 2008

50 anos de sonhos



Há exatos 50 anos, o fortalezense se deslumbrava com a inauguração do São Luiz, considerado o mais belo cinema do Brasil.

Na Fortaleza de 1958, provinciana cidade com aproximadamente 500.000 habitantes, o cinema era ainda a maior e mais concorrida diversão. No Centro, predominavam salas imponentes como o Diogo, com seu majestoso balcão e platéia de 1.000 lugares; o Moderno e sua bela fachada de palácio egípcio; e o imenso Majestic-Palace, em forma de teatro elizabetano, à semelhança do Theatro José de Alencar. Todos pertenciam ao grupo exibidor do cearense Luiz Severiano Ribeiro, proprietário da então maior cadeia de cinemas existente no País.



Durante 20 anos, a cidade havia aguardado com grande interesse a inauguração da monumental sala anunciada como a mais moderna e suntuosa do Brasil. A construção do edifício São Luiz foi interrompida durante a Segunda Guerra Mundial, em parte pelas dificuldades da compra de material importado para o cinema, que utilizou mármore de Carrara e lustres tchecos em sua monumental sala de espera.



Os trabalhos só foram reiniciados em 1952, motivando, na época, um entusiasmado artigo do jornalista João Jacques Ferreira Lopes, sob o título “O segundo tapume”. A partir daí, decorreram seis anos de intensa expectativa, motivadores, inclusive, do surgimento de lendas urbanas, entre elas a de que o São Luiz jamais seria inaugurado porque uma falha técnica de engenharia estava fazendo o prédio inclinar-se para a frente. Na realidade, foi perfeita a execução do projeto idealizado pelo engenheiro civil e arquiteto cearense Humberto da Justa Menescal, formado pela Escola de Trabalhos Públicos de Paris.

Auge esplendoroso

Após sucessivos adiamentos, o São Luiz abriu suas portas a um sofisticado público, na noite de 26 de março de 1958, com a exibição do filme “Anastácia, a Princesa Esquecida”, de Anatole Litvak, no qual a atriz sueca Ingrid Bergman brilhava na interpretação de uma suposta sobrevivente do massacre perpetrado contra a família do Czar russo, em 1917. Os convites para a inauguração foram acirradamente disputados por importantes personagens da sociedade fortalezense, alguns dos quais chegaram a fazer ameaças no sentido de obter acesso ao grandioso evento.

Durante seu primeiro mês de existência, o São Luiz exibiu um festival com lançamentos diários das mais importantes produções cinematográficos em cartaz na época. Multidões se aglomeravam na Praça do Ferreira, em imensas filas que faziam a volta do quarteirão e chegavam a encontrar-se na paralela Rua Barão do Rio Branco. Não se mediam esforços para assegurar um lugar qualquer na platéia de filmes como “Trapézio”, com Gina Lollobrigida e Burt Lancaster; “O Homem Que Sabia Demais”, clássico de Alfred Hitchcock, mestre do suspense; “O Príncipe Encantado”, com os ícones Marilyn Monroe e Sir Laurence Olivier, e o popular épico “O Manto Sagrado”, várias vezes reexibido em Fortaleza. Três dos maiores sucessos de bilheteria da mostra inaugural foram “Marcelino, Pão e Vinho”, película espanhola com ingênua temática religiosa; “Tarde Demais Para Esquecer”, êxito maior dos atores Deborah Kerr e Cary Grant, e a chanchada brasileira “De Vento em Popa”, na qual o cômico Oscarito, já com 52 anos, dançava o “rock´n´roll” à maneira de um adolescente.

Início do declínio

Com a crescente popularidade da televisão e, sobretudo, após o surgimento de vários centros comerciais e de lazer nos bairros de Fortaleza, a luxuosa sala exibidora da Praça do Ferreira iniciou seu processo de decadência, dando seqüência ao lamentável fechamento e demolição do Cine Moderno e à tragédia cultural representada pelo incêndio que consumiu, para sempre, o belo Majestic-Palace. O primeiro passo indicativo dessa mudança foi a abolição da exigência do uso de paletó, com o objetivo de atingir uma faixa mais popular de espectadores. Também deixaram de ser promovidos os clássicos festivais de aniversário com superproduções inéditas, que tanto sucesso obtinham, todos os anos, no final do mês de março.

Em certa época, o processo de fuga do público se acentuou tanto que o São Luiz passou a programar filmes de “kung fu” e pornochanchadas de terceira categoria, com a frustrada intenção de aumentar o número de espectadores. Isso apenas concorreu para afastar, ainda mais, seus antigos freqüentadores. Em uma única oportunidade, o imponente cinema conseguiu reunir novamente as grandes platéias de sua fase áurea: foi quando da exibição do fenômeno “Titanic”, com Leonardo DiCaprio, que conseguiu lotar os 1.300 lugares durante semanas seguidas. Nem mesmo o Cine-Ceará, agora Festival Íbero-Americano de Cinema, tem conseguido preencher todos os lugares da imensa sala como nos primeiros anos de sua realização.

Projeto elogiável

Construído para funcionar como cinema e teatro, com palco de extensa dimensão, fosso de orquestra e confortáveis camarins, o São Luiz só veio a ser utilizado como sala de espetáculos depois de funcionar como Centro Cultural Sesc-Severiano Ribeiro, após convênio firmado para evitar seu definitivo fechamento. Campanhas promovidas por cinéfilos e pela mídia fortalezense foram decisivas para que a mais tradicional sala cinematográfica da cidade continuasse a existir, não se transformando em cenário de seitas caça-níqueis, ávidas de espaços em locais de grande movimentação urbana.

Resta agora a esperança de que se materialize a intenção da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), no sentido de restituir por completo ao São Luiz sua dignidade e funcionalidade originais, institucionalizando-o, também, como local permanente para apresentações de espetáculos de música, teatro e outras manifestações culturais. Será um resgate apreciável sob todos os aspectos, pelo qual os fortalezenses e a cultura cearense ficarão penhoradamente gratos.

PROGRAMAÇÃO

14h - Audiência Pública ´São Luiz 50 anos: Foco de Resistência do Centro Urbano de Fortaleza´ - Local: Assembléia Legislativa

18h - Lançamento do projeto ´Comerciário, o cinema é seu!´ - Local: Sesc São Luiz

18h30 - Exibição do Documentário de 90 anos do Grupo de Cinemas Severiano Ribeiro - Local: Sesc São Luiz

19h - Lançamento do documentário ´O Luiz de Fortaleza - memórias de um cinema de rua´ - Local: Sesc São Luiz

20h - Exibição do filme ´Anastácia e a princesa esquecida´ - primeiro filme exibido no Cine São Luiz em 1958.


FIQUE POR DENTRO

O idealizador do Cine São Luiz

Luiz Severiano Ribeiro (1885-1974), nasceu em Baturité-Ceará e tornou-se famoso por criar e fazer expandir aquela que é hoje a segunda maior cadeia exibidora do Brasil, no campo cinematográfico. Com o São Luiz, Severiano Ribeiro presentou o Ceará com a mais suntuosa de suas salas exibidoras, hoje a única remanescente dos inúmeros cinemas de rua existentes no Centro de Fortaleza.

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quarta-feira, 26 de março de 2008 às 3:24:00 PM |  


Há exatos 50 anos, o fortalezense se deslumbrava com a inauguração do São Luiz, considerado o mais belo cinema do Brasil.

Na Fortaleza de 1958, provinciana cidade com aproximadamente 500.000 habitantes, o cinema era ainda a maior e mais concorrida diversão. No Centro, predominavam salas imponentes como o Diogo, com seu majestoso balcão e platéia de 1.000 lugares; o Moderno e sua bela fachada de palácio egípcio; e o imenso Majestic-Palace, em forma de teatro elizabetano, à semelhança do Theatro José de Alencar. Todos pertenciam ao grupo exibidor do cearense Luiz Severiano Ribeiro, proprietário da então maior cadeia de cinemas existente no País.



Durante 20 anos, a cidade havia aguardado com grande interesse a inauguração da monumental sala anunciada como a mais moderna e suntuosa do Brasil. A construção do edifício São Luiz foi interrompida durante a Segunda Guerra Mundial, em parte pelas dificuldades da compra de material importado para o cinema, que utilizou mármore de Carrara e lustres tchecos em sua monumental sala de espera.



Os trabalhos só foram reiniciados em 1952, motivando, na época, um entusiasmado artigo do jornalista João Jacques Ferreira Lopes, sob o título “O segundo tapume”. A partir daí, decorreram seis anos de intensa expectativa, motivadores, inclusive, do surgimento de lendas urbanas, entre elas a de que o São Luiz jamais seria inaugurado porque uma falha técnica de engenharia estava fazendo o prédio inclinar-se para a frente. Na realidade, foi perfeita a execução do projeto idealizado pelo engenheiro civil e arquiteto cearense Humberto da Justa Menescal, formado pela Escola de Trabalhos Públicos de Paris.

Auge esplendoroso

Após sucessivos adiamentos, o São Luiz abriu suas portas a um sofisticado público, na noite de 26 de março de 1958, com a exibição do filme “Anastácia, a Princesa Esquecida”, de Anatole Litvak, no qual a atriz sueca Ingrid Bergman brilhava na interpretação de uma suposta sobrevivente do massacre perpetrado contra a família do Czar russo, em 1917. Os convites para a inauguração foram acirradamente disputados por importantes personagens da sociedade fortalezense, alguns dos quais chegaram a fazer ameaças no sentido de obter acesso ao grandioso evento.

Durante seu primeiro mês de existência, o São Luiz exibiu um festival com lançamentos diários das mais importantes produções cinematográficos em cartaz na época. Multidões se aglomeravam na Praça do Ferreira, em imensas filas que faziam a volta do quarteirão e chegavam a encontrar-se na paralela Rua Barão do Rio Branco. Não se mediam esforços para assegurar um lugar qualquer na platéia de filmes como “Trapézio”, com Gina Lollobrigida e Burt Lancaster; “O Homem Que Sabia Demais”, clássico de Alfred Hitchcock, mestre do suspense; “O Príncipe Encantado”, com os ícones Marilyn Monroe e Sir Laurence Olivier, e o popular épico “O Manto Sagrado”, várias vezes reexibido em Fortaleza. Três dos maiores sucessos de bilheteria da mostra inaugural foram “Marcelino, Pão e Vinho”, película espanhola com ingênua temática religiosa; “Tarde Demais Para Esquecer”, êxito maior dos atores Deborah Kerr e Cary Grant, e a chanchada brasileira “De Vento em Popa”, na qual o cômico Oscarito, já com 52 anos, dançava o “rock´n´roll” à maneira de um adolescente.

Início do declínio

Com a crescente popularidade da televisão e, sobretudo, após o surgimento de vários centros comerciais e de lazer nos bairros de Fortaleza, a luxuosa sala exibidora da Praça do Ferreira iniciou seu processo de decadência, dando seqüência ao lamentável fechamento e demolição do Cine Moderno e à tragédia cultural representada pelo incêndio que consumiu, para sempre, o belo Majestic-Palace. O primeiro passo indicativo dessa mudança foi a abolição da exigência do uso de paletó, com o objetivo de atingir uma faixa mais popular de espectadores. Também deixaram de ser promovidos os clássicos festivais de aniversário com superproduções inéditas, que tanto sucesso obtinham, todos os anos, no final do mês de março.

Em certa época, o processo de fuga do público se acentuou tanto que o São Luiz passou a programar filmes de “kung fu” e pornochanchadas de terceira categoria, com a frustrada intenção de aumentar o número de espectadores. Isso apenas concorreu para afastar, ainda mais, seus antigos freqüentadores. Em uma única oportunidade, o imponente cinema conseguiu reunir novamente as grandes platéias de sua fase áurea: foi quando da exibição do fenômeno “Titanic”, com Leonardo DiCaprio, que conseguiu lotar os 1.300 lugares durante semanas seguidas. Nem mesmo o Cine-Ceará, agora Festival Íbero-Americano de Cinema, tem conseguido preencher todos os lugares da imensa sala como nos primeiros anos de sua realização.

Projeto elogiável

Construído para funcionar como cinema e teatro, com palco de extensa dimensão, fosso de orquestra e confortáveis camarins, o São Luiz só veio a ser utilizado como sala de espetáculos depois de funcionar como Centro Cultural Sesc-Severiano Ribeiro, após convênio firmado para evitar seu definitivo fechamento. Campanhas promovidas por cinéfilos e pela mídia fortalezense foram decisivas para que a mais tradicional sala cinematográfica da cidade continuasse a existir, não se transformando em cenário de seitas caça-níqueis, ávidas de espaços em locais de grande movimentação urbana.

Resta agora a esperança de que se materialize a intenção da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), no sentido de restituir por completo ao São Luiz sua dignidade e funcionalidade originais, institucionalizando-o, também, como local permanente para apresentações de espetáculos de música, teatro e outras manifestações culturais. Será um resgate apreciável sob todos os aspectos, pelo qual os fortalezenses e a cultura cearense ficarão penhoradamente gratos.

PROGRAMAÇÃO

14h - Audiência Pública ´São Luiz 50 anos: Foco de Resistência do Centro Urbano de Fortaleza´ - Local: Assembléia Legislativa

18h - Lançamento do projeto ´Comerciário, o cinema é seu!´ - Local: Sesc São Luiz

18h30 - Exibição do Documentário de 90 anos do Grupo de Cinemas Severiano Ribeiro - Local: Sesc São Luiz

19h - Lançamento do documentário ´O Luiz de Fortaleza - memórias de um cinema de rua´ - Local: Sesc São Luiz

20h - Exibição do filme ´Anastácia e a princesa esquecida´ - primeiro filme exibido no Cine São Luiz em 1958.


FIQUE POR DENTRO

O idealizador do Cine São Luiz

Luiz Severiano Ribeiro (1885-1974), nasceu em Baturité-Ceará e tornou-se famoso por criar e fazer expandir aquela que é hoje a segunda maior cadeia exibidora do Brasil, no campo cinematográfico. Com o São Luiz, Severiano Ribeiro presentou o Ceará com a mais suntuosa de suas salas exibidoras, hoje a única remanescente dos inúmeros cinemas de rua existentes no Centro de Fortaleza.
Postado por Fred Guilhon Marcadores:

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